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Docência e(é) sacerdócio

Na noite da última quarta-feira de fevereiro, dia 27, recebemos o grau de licenciados em História pela UFPE. Embora exaustivo, os ritos são bastante significativos na vida em sociedade, demarcam o fim de uma trajetória e o início de uma outra, possuem um caráter de ruptura e, por que não dizer, mágico. A presença dos familiares, amigos e professores, o vestuário, o juramento e a recitação das orações são pedagógicas ao nos ensinar que somos a partir de então profissionais na área que escolhemos ser. Diria que a noite foi cinematográfica, em todos os sentidos, tanto pelas lentes das câmeras e Smartfones, que nos perseguiam a cada instante, quanto pelos flashes, que nós formandos fazíamos desde que chegamos no local da cerimônia, sobre nossa trajetória na universidade. A presença de nossos pais, o reencontro com amigos do início do curso, as histórias lembradas figurou um ambiente fértil para rememorarmos o que vivemos nos quase cinco anos da graduação. Certamente, a cerimônia proporcionou significados distintos para os formandos. Percebi muitos rostos emocionados, chorando a alegria daquele dia, que parecia tão distante mas que havia chegado, outros radiantes e deslumbrados somente porque ali haviam chegado, outras ainda, apáticos, indiferentes. Fui um pouco de cada um... Lembrei-me do perrengue que passei para entrar na UFPE, a chegada a universidade era inimaginável para mim, estudante de escola pública e de uma família pobre do interior. A muito custo fomos aprovados no vestibular, felizmente fui agraciado ao encontrar morada no Recife, primeiro na casa da minha Tia Ana, depois na recém inaugurada Casa do Estudante Mista da UFPE. Estar no campus todos os dias, respirando os ares da universidade foi para nós residentes uma experiência única, privilegiada diria. Naquele nicho, aprendi a desmistificar muitos conceitos sociais que carregava em minha trajetória cultural, me encantei com o conhecimento e a produção intelectual, também me desencantei... Muitas vezes! Com a incompatibilidade de alguns temas discutidos na universidade com a realidade das ruas, me desencantei com algumas fragilidades da formação oferecida pelo curso de História, com alguns professores e colegas do curso, com o cenário político nacional, com tanta gente que acha que liberdade é seguir uma doutrina política e repetir bordões polissilábicos, ou outros, que querem a todo custo dividir o mundo em duas ideologias ou cores partidárias, mas sobrevivi. Ou melhor, eu vivi! Participei de encontros muito produtivos, de aulas inesquecíveis, conheci pessoas muito humanas, que embora não confessando credo algum, me ensinaram, na prática, mais do Evangelho do que qualquer religioso. Me surpreendi, ri (muito), chorei, me decepcionei, brinquei, errei, aprendi a conviver com pessoas diferentes de mim e conheci colegas que hoje são amigos, fiéis, os tomei para mim, porque o amor é posse, fazer o quê? Os levarei para o resto da vida. Na universidade tive a grata surpresa de encontrar pessoas que comungavam da mesma fé que a minha, embora pareça estranho, mas a universidade foi um fermento que alimentou minha vida espiritual. É somente agradecer a Deus, pelos felizes encontros que tive com cada pessoa na universidade. Resta-me agora abraçar o magistério que me foi confiado, as circunstâncias atuais exigem um ensino de História que trate dos diferentes “brasis”, que narre a história a partir da perspectiva de quem a faz, o povo, que dê conta de apresentar narrativas outras, que não a dos reis e heróis que foram construídos pela perspectiva tradicional. Minha experiência religiosa permite-me compreender a docência como um sacerdócio, o professor é aquele que compartilha seu conhecimento com seus alunos, ou seja, entrega sua vida, que se encontra escondida na história que ensina.

Foto: Victor Durval

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