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Do vírus para nós

O momento presente é convidativo para fazermos uma revisão de nossa vida e direcionarmos para onde querermos ir enquanto civilização. Rever valores, reconstruir vínculos, cultuar o simples, são algumas das coisas que temos feito ou podemos fazer na reclusão de nossas casas.
Penso que o vírus, este organismo invisível que nos atormenta, tenha nos empurrado para o palco real de nossa existência, no momento em que finalmente conseguimos a liberdade que tanto almejamos.
Livres do nosso trabalho, livres de nossas aulas, de nossas reuniões entediantes, das companhias insuportáveis... Até o nosso inimigo invisível chegar era comum dizermos ou ouvirmos: “Preciso de um tempo para mim!” Pois é amigo este tempo chegou, e parece-me que ainda não estamos preparados para fazer uso dele.
As músicas populares guardam uma porção de ensinamentos que nos auxiliam no entendimento da realidade que nos cerca, “O que é eu vou fazer com esta tal liberdade”, por exemplo, é uma canção brasileira de Fábio Júnior e do Grupo Só Pra Contrariar, que fez sucesso em nossas TVs e Rádios no início dos anos 2000 na voz daquele simpático cantor Alexandre Pires. A letra trata de uma pessoa apaixonada que cai na desilusão pela ausência de sua amada. Desesperado, sua companheira é a indomável solidão. 
Se não pela paixão, estamos diante de um conflito semelhante aquele que cantou Pires. Distantes de nossas rotinas convencionais não sabemos o que fazer com a nossa própria companhia herdada pela suposta liberdade. Confinados em nossos minúsculos apartamentos ou no conforto de nossas casas, chegamos a cansar de “não fazer nada”, pedimos clemência... Que voltem as cobranças dos professores! Que voltem os puxões de orelhas dos patrões! Que os chatos retornem ao nosso convívio para nos garantir fofocas e boas risadas.
A longa lista de livros para ler, os cursos gratuitos disponíveis na internet, o idioma que queremos acrescentar em nosso currículo, os jornais para nos inteirarmos do rosário de informações sobre a doença, além das séries que podemos maratonar parecem ser insuficientes para preencher o vazio de nossas almas inquietas.
Queremos a segurança de nossas rotinas, embora nos levem a exaustão parece que naquele espaço milimetricamente cronometrado a vida é mais segura, pois não temos tempo para decidir nada, tudo já está pronto e decidido, fazemos nossas tarefas quase que automaticamente. Lá não há lugar para reflexão, nem tempo para crises de ansiedade, pois somos levados consciente e inconscientemente a produzir.
Sem produzirmos é comum passarmos o dia em nosso confinamento e dizermos ao final: “Não fiz nada hoje!” Como não? E a limpeza da casa? E a conversa boba com aquele amigo que você não conversava há séculos? E a companhia de seus pais, que você já tinha esquecido dos seus hábitos? 
O vírus nos obriga a aprender sobre nós mesmos e a conviver com o silêncio de nossa presença, quando nunca fomos ensinados a isto. Quando vemos pessoas nas ruas em tempos de distanciamento social podemos tirar muitas conclusões: necessidade de trabalho, ignorância, rebeldia... Uma delas, não menos importante é justamente a incapacidade de lidar com sua própria companhia. Muitos dos que vão às ruas é porque não suportam suas casas, ou melhor, não suportam o som ensurdecedor gerado por uma solidão mal administrada. Procuram barulho fora, pois não conseguem domar os ruídos internos que aparecem na solidão, nela emanam as perguntas mais simples e mais perturbadoras vem a nossa mente e aos nossos corações.
Tudo isto nos leva a concluir que pouco conhecemos de nós, de nossa própria história, de nossas famílias e nos faz perceber o quanto necessitamos do outro para alimentar nossa existência, de igual modo quando olhamos para sociedade nestes tempos de reclusão, notamos o quanto nossos planejamentos pessoais são passíveis ao desmantelamento, nada adianta tanta organização e agendamento quando somos surpreendidos pela vida que acontece apesar de nós.
O grande desafio que a gravidade do momento nos impõe é fazer do tedioso confinamento pessoal um grande retiro humano e espiritual, tornando o lugar onde vivemos um local de escuta e aprendizagem. O ócio com o qual somos desacostumados a conviver pode ser um lugar de criatividade e auto-conhecimento. 
Texto: Luis Felipe Durval | Cortês, 01 de abril de 2020.

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