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Henrique, o homem de Deus


A Igreja no Brasil chora a perda de Dom Henrique Soares da Costa, bispo de nossa querida Diocese de Palmares, vítima da nefasta Covid-19. Conheci Dom Henrique Soares no ano de 2014, logo quando foi nomeado bispo de Palmares, lembro-me que naquele momento maratonava pelas madrugadas a infinidade de seus vídeos e textos na internet. Antes mesmo da publicação do seu livro “Escatologia - Sobre o Fim do Mundo”, eu já havia me adiantado e reunido os seus escritos disponíveis e os imprimido, o material era excelente. Algo chamava-me atenção naquele pequeno gigante. Identifiquei de imediato a sua singularidade. A forma apaixonada e apaixonante com a qual falava Cristo e da Igreja, a profundidade do seu conteúdo, o jeito culto, simples e catequético de expor as coisas celestes, mas, sobretudo, sua capacidade de cativar a todos.
Felizmente tive o privilégio de conhecê-lo mais de perto, primeiro em minha paróquia, depois como “seu” seminarista, pois desta forma carinhosa ele nos chamava. Meu primeiro contato com o bispo foi num encontro de jovens no seminário diocesano em Olinda, naquela ocasião ouvíamos incansavelmente aquele homem de cabelos brancos falar de Jesus Cristo, de uma maneira inédita, totalmente diferente do convencional. Lembro que madrugamos na cozinha, despejando sobre ele uma multidão de perguntas, sugando sua sabedoria que não se findava. Falava de Cristo sempre sorrindo, como um jovem apaixonado. Inicialmente pensava que sua fala parecesse como que Jesus fosse dele um colega de quarto, depois conclui, Jesus Cristo foi o melhor amigo de Dom Henrique. Impossível não sê-lo, ele conhecia muito sobre Jesus, sua sabedoria não podia advir somente da literatura, mas de uma profunda intimidade entre ele, discípulo, e Cristo, Mestre. Por esta razão, foi um bom pastor, pois sabia ser ovelha nas mãos do Senhor.
Fiquei encantado por aquele homem, pela forma como falava, por todo seu conhecimento, sobretudo, por não perder aquele sotaque inconfundível: “repare”, “veja”, “meu filho”; algumas de suas expressões que nos prendia a atenção. Onde eu chegava fazia questão em dizer que era filho de Palmares, evidente que queria tornar conhecido meu bispo, orgulhava-me muito dele e, acabava despertando a inveja dos amigos de outras dioceses, que sabendo de sua boa fama queriam tê-lo. Como eu, muitos jovens aprofundaram-se no conhecimento de Jesus através da sua pregação, quando divulgava seu nome aos amigos, queria na verdade que eles conhecessem a mensagem por ele pregada: Jesus Cristo.
Morando oito meses na Casa de Formação Sacerdotal Bento XVI em Belém de Maria/PE, sob a orientação do Pe. Valmir Antonio, junto com a comunidade de irmãos, pude crescer na fé e no discernimento vocacional. Tínhamos aulas mensais com Dom Henrique sobre Liturgia, era difícil terminar uma aula daquele homem sem que eu não tivesse derramado ao menos uma lágrima ou então não quisesse ser uma pessoa melhor. Evidente que sua presença mais frequente em minha vida, nutrificou minha caminhada espiritual, mas também me tornava familiarizado a ele. Sempre soube que por estar próximo não conseguiria dimensionar o tamanho de alguém tão grande na fé. Com sua partida para o Pai é mais fácil enxergar sua estatura, mas naquele momento sentíamos uma presença mística.
Sua rigidez na doutrina, seu modo enérgico de pregar o Céu e seu zelo constante pela liturgia, não o impedia de ser um homem sensível as causas sociais, por isto cativava a todos. Dom Henrique congregava diferenças e, ao mesmo tempo, possuía a firme clareza de quem era, por isto repetidas vezes ouvíamos de sua boca: “sou bispo de vocês”. Suas virtudes todas não cabiam em caixinhas como “conservador”, “progressista”, “carismático”... Não, não podemos resumir nosso Dom Henrique a rótulos, pois eles não explicam em nada a vida do Dom, ele era mais do que isso... Tão logo tenha iniciado seu apostolado na internet, recebeu o bispo alagoano, o título de “Leão do Nordeste”. Era um católico autêntico, tal como Padre Rolim, Padre Ibiapina, Padre Cícero, Frei Damião, Dom Hélder Câmara, Santa Dulce dos Pobres e tantos apóstolos e apóstolas deste fecundo território de santos que é o nordeste brasileiro.
Não seria exagero de minha parte afirmar no dia em que sepultamos nosso Dom Henrique, arrancado tão depressa de nós, que ao lado de todos esses santos do povo, nosso bispo ajudou a construir no coração das pessoas uma religiosidade para o nosso tempo, marcada acima de tudo, pelo encontro pessoal com Cristo. Esta é a razão pela qual sua doutrina não cansava, seu rigor com os costumes significava somente prova de amor a Jesus, não havia outro motivo, todas as suas motivações começavam em Cristo e n'Ele terminavam. Talvez esta foi a grande contribuição dele para a Igreja no Brasil, qual seja, apresentar uma fé encarnada, pregando unicamente a pessoa de Jesus e não teorias, projetos, propostas. Por isto, Dom Henrique foi aclamado em vida e na morte. Neste momento em que redijo este texto há uma legião de fiéis pedindo que a Igreja reconheça sua santidade, certamente no coração de cada pessoa que conviveu com ele ou foi tocado por suas pregações sabe de suas virtudes heroicas, do cheiro de Céu que aquele homem de batina deixava por onde passava.
Sua existência na terra era luminosa, trazia-nos paz, sentíamos protegidos com ele, por isto sua perda causa-nos grande vazio, um enorme sentimento de orfandade invade nossas almas, pois seu episcopado significou a cada diocesano e filho na fé uma paternidade espiritual. O que pode nos confortar neste momento? A certeza de que Dom Henrique desfruta da vida infinita que tanto pregava.
A ele uma boa estadia no convívio dos santos!
Luis Felipe Durval
Cortês, 19 de julho de 2020





Casa de Formação Sacerdotal Bento XVI - Belém de Maria/PE
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"Colônia Vocacional de Férias" - Seminário João Paulo II - Olinda/PE
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