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Significados da vitória de Fátima e Eron

As derrotas são sempre mais didáticas para extrairmos explicações que as justifiquem. Depois delas, é fácil encontrarmos razões para a resignação e o inconformismo, diferentemente das disputas exitosas que nos levam a uma acomodação, ao conformismo não-reflexivo, também a uma euforia necessária.

Julgo ser pertinente, no calor desta segunda-feira, pós eleições, entendermos os significados que tornam este pleito um evento importante em nossa jovem história política, que logrou a majoritária de Cortês a primeira mulher prefeita, Fátima Borba.

O êxito desta campanha reside no conteúdo, nos meios e na forma de fazer política. Sobre este sucesso, algumas observações:

1. A disposição do grupo político do ex-prefeito Ernane Borba de escuta ao contraditório e a capacidade de realização de uma autocrítica. A construção de um projeto nasce a partir da destruição de visões cristalizadas e centralizadoras. As tomadas de decisão realizadas de maneira coletiva, favoreceram o entendimento do sentimento das ruas.

2. A escolha do vice-prefeito representou o rosto de cada cortesense na majoritária, cansado, há muito, de figuras ausentes da vida cotidiana do município. Na pessoa do Professor Eron José, encontramos a cada um de nós cortesenses, primeiro pelo ineditismo que representa contarmos com um vice-prefeito tão próximo a nós, depois pela sua competência, inteligência e simplicidade, levando inclusive outras candidaturas a optarem por quadros semelhantes ao Professor Eron.

3. Quanto à campanha, pela primeira vez, pudemos discutir temas muitos caros à sociedade, como a questão da representatividade da mulher na política, que, lamentavelmente, ainda é estigmatizada numa perspectiva reacionária, que limita as mulheres aos afazeres domésticos. Em reação a isto, assistimos a pessoas simples conversando sobre o tema e a popularização da expressão urgente e oportuna aos machistas de plantão: “Lugar de mulher é onde ela quiser”.

4. A campanha provou que o poder econômico não é mais suficiente para ganhar eleição; o povo cortesense não se ilude mais com dinheiro nem favores. Muitos receberam doações, mas sabiam do sigilo do voto e souberam votar.

5. Também houve a generalização das fake news, uma forma educada de dizer mentiras, calúnias e difamações. A bem da verdade, nenhum partido ficou imune a elas, mas a não reação de Fátima e equipe fez cair por terra cada ataque leviano.

6. O diferencial de sua campanha foi justamente o caráter propositivo, a apresentação de projetos em benefício dos cortesenses. Concentrado tempo na exposição do plano de governo, faltou para ataques pessoais, cada proposta renovava a esperança do nosso povo, carente de discussões, sobre projetos para a cidade.

7. O preparo do pessoal desta campanha foi o grande diferencial: Fátima contou com a sorte de estar ladeada de pessoas competentes, inteligentes e capazes. A melhor parte é que o grupo é formado de pessoas da nossa terra. Registro ainda o trabalho da equipe de mídia, amplamente reconhecido pelas oposições e referencial para toda a mata sul de nosso Estado.

8. Esta campanha também foi um basta ao voto de cabresto. Um grito de liberdade do povo cortesense foi depositado nas urnas, uma resposta àqueles que se julgam donos de Cortês.

9. Nos bastidores, encontramos um trabalho coletivo, colaborativo e descentralizado, tornando eficaz o desempenho de cada equipe, permitindo que chegássemos ao dia da eleição com muita serenidade e certeza que fizemos o que deveríamos ter feito.

10. Por fim, esta campanha fadou ao fracasso aqueles que encontraram na política um meio de enriquecimento pessoal, o voto do povo foi um repúdio ao que pode ser visto em plena luz do dia.

Desejo sabedoria a Fátima e Eron, que encontrarão uma realidade crítica na cidade e precisam, de imediato, trabalhar para a retomada econômica do nosso município. O desafio será materializar cada proposta, honrar a cada voto creditado e dialogar com uma oposição fragmentada.

Vitória da democracia, da esperança sobre o medo, da liberdade sobre a escravidão!

A derrota ensina, mas a vitória liberta.


Luis Felipe Durval
Cortês, 16 de novembro de 2020.

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